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A Bússola de Ouro
sábado, dezembro 29, 2007
Por Anônimo

Nunca um genêro cinematográfico ficou tão evidente. Tampouco de maneira tão agressiva. Desde 2001, grande parte dos estúdios hollywoodianos se acotovelam e buscam um espaço, mesmo que mínimo, para se projetarem nos cinemas em forma de fantasia. Quando os primeiros episódios da série "Harry Potter" e "O Senhor dos Anéis" entraram em circuito mundial com diferença de apenas 2 meses, a maioria massiva da crítica e dos próprios espectadores acreditavam que este era um segmento que não iria se firmar por muito tempo. Ledo engano. De lá para cá houve uma avalanche de produções do estilo em questão, todas adaptadas de obras literárias de grande valor. De fato, nenhuma conseguiu criar o impacto absurdo que se estende até hoje por "Harry Potter", nem abocanhar tantos prêmios como "O Senhor dos Anéis". A partida da corrida do ouro foi anunciada. Disney, Fox, DreamWorks, Paramount, todas tentaram alcançar um mínimo da parcela do público que a Warner Bros. possuia, mas o fracasso foi evidente. Se “As Crônicas de Nárnia” conseguiu arrecadar mais de 700 milhões pelo mundo em bilheterias e barganhar uma continuação para 2008 (devido ao brilhantismo que a Walt Disney detém ao cuidar bem de seus produtos), "Eragon", "Desventuras em Série", "Ponte para Terabítia" e "Mimzy" desampontaram na geladeira.

Sem dúvida, A Bússola de Ouro (The Golden Compass – EUA – 2007 PlayArte) era a grande promessa do ano para tentar dividir o público. Orçada em 150 milhões de dólares, ultrapassada aos 180 milhões e repensada durante quase 10 anos, a super-produção baseada no primeiro volume da trilogia “Fronteiras do Universo” de Phillip Pullman desmente todo o rebuliço criado pela Igreja em cima da obra; infelizmente. Se, ao que parece, Pullaman usou sua habilidade com as letras para desenvolver uma trama infantil fantástica (definição para a qualidade e o estilo) repleta de critérios e objetos que desafiam a mente já adulta a contestar certas interferências da religião no desenvolvimento de cada ser humano, o filme, no máximo, salienta a subordinação da vontade das crianças ao querer dos adultos e estes aos mais poderosos. Mas esta é uma deficiência complicada de ser relacionada ao seu causador.

Produzida pela New Line Cinema – famosa por sua audaciosa adaptação da Trilogia do Anel – e distribuída pela PlayArte, a Bússola foi, em termos de esclarecimento, um jogo comercial para tentar ocupar o espaço vago que Peter Jackson criou ao finalizar sua obra-prima em 2004. Mas a falha, ao que parece, continuará com grandes chances de ser acentuada. Após duas semanas de exibição nos EUA e em algumas partes do planeta, o filme só arrecadou 142 milhões de dólares aproximadamente. O que ainda não cobre os custos de criação. A crítica mundial foi cruel em alguns pontos para com o trabalho do diretor e roteirista Chris Weitz e o público, como demonstram as sifras entrantes nos cofres da produtora, demonstra-se reluntante a ocupar uma vaga nas salas de projeção.

Ainda em 2003, Tom Stoppard ficou responsável pela elaboração do roteiro. Contudo a entrada de Weitz foi decisiva, já que este decidiu refazer o projeto com o concentimento e aprovação do autor da trama original, Phillip Pullman. Entretanto, o próprio Weitz, num acesso de inteligência e estupidez ( a julgar por seus trabalhos anteriors; "Um Grande Garoto", "FormiguinaZ" e "American Pie"), julgou-se incapaz de levar o filme adiante, pois se sentiu inabilitado devido às proporções gigantescas que a Bússola exigia, desistindo em 2004. Quando a New Line escalou o excelente Anand Tucker ("Moça com Brinco de Pérola") para assumir o timão, a franquia parecia finalmente salva; um grande filme estava para nascer, mas as imposições arrogantes motivadas pelo capitalismo da produtora foram o suficiente para afastar Tucker em 2005 e reconvocar Weitz. A essa altura o filme já estaria fragmentado e o projeto desgastado. O roteiro foi novamete adaptado por Chris, mas a magnitude e a inteligência que estariam presentes no enredo de Anand Tucker se perderam.

Espremidos contra os prazos estabelecidos pela New Line e pressionados pelo público, os produtores resolveram tocar a obra e pôr a mão na massa. Entrava em pré-produção o primeiro episódio da trilogia "Fronteiras do Universo".

Abençoado por um elenco de nomes conhecidos e capazes, o longa consegue ser atraente à primeira vista. A direção de arte é belíssima, realçada friamente pela fotografia. Os figurinos suntuosos e detalhados transmitem bem a natureza de cada personagem como uma luva com impressões digitais e os efeitos sonoros compensam os momentos embaraçosos dos efeitos visuais. Não que as animações digitais sejam ruins, de modo algum. O urso polar Iorek Byrnison (Ian McKellen), que acompanha Lyra em sua jornada – vivida pela estrante Dakota Blue Richards de maneira arrasadora, diga-se de passagem - ilustra o quanto os animadores foram cautelosos em certos aspectos. Aliás, a sequência do duelo contra o rei urso Ragner Sturlusson é a única cena de ação que emplaca. Mas o mesmo não pode ser dito de boa parte dos daemons. Eles convencem mais quando estão falando ou se expressando do que quando andam ou correm. O macaco da Srta Coulter (uma Nicole Kidman que se expressa tão bem quanto os daemons) é o mais fraco, e faz-nos lembrar dos amigos do pântano do "Shrek". A trilha sonora é vaga e sua única função é construir o acompanhamento da cena, sem passar qualquer emoção ou desenvolver um tema central, apesar dos belos arranjos. Mas nada disso chega a ser tão desmerecedor de afeto quanto o roteiro e a edição. As cenas são desconexas e a mensagem subliminar que Pullman quis atenuar no livro não se faz presente. Desmérito não só de Weitz, mas também da produtora, que fez o possível para deixar a produção mais adequada ao gênero infantil e seco; entendido pelo receio de possivelmente não haver aceitação do público. De fato ela acertou, mas o motivo foi o contrário do que ela achava.

Movida pela pretensão, a New Line distanciou-se o máximo que pôde da agressividade da história e da inoscência da personagem central: inverteu a ordem das coisas. Um erro que confunde mais o espectador e os conhecedores de seu trabalho, visto que a itenção foi exatamente a oposta em seus filmes anteriores, como a trilogia de "O Senhor dos Anéis". Mais estranha torna-se esta atitude quando houve a idéia descabida de vincular a produção atual justamente com a franquia baseada nos livros de J.R.R Tolkien.

De certo, a "Bússola de Ouro" não é um filme ruim. Mas está um pouco longe de ser bom. A técnica deslumbra, mas não engana. Prova irrefutável do que uma intervenção autoritária pode ocasionar num trabalho ainda em desenvolvimento. É como crescer sem essência, sem arbítrio e auto-conhecimento. É como se o “pó” tivesse feito ao filme o mal que a ele é relacionado.

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Harry Potter e a Ordem da Fênix
sábado, dezembro 29, 2007
Por Anônimo

Escrito sob constantes pressões contratuais e pessoais, o quinto volume da maior conquista do mercado editorial precisou vencer obstáculos quase que implacáveis para vir ao mundo. Sendo este o primeiro livro inédito após o lançamento do primeiro filme de uma promissora série cinematográfica, a cobrança era evidente e o receio, perverso.

Após ficar meses abaixo das listas semanais de mais vendidos, enfim, retorna às prateleiras do TOP 10 o maior fenômeno cultural já visto. Mas o sucesso não foi resultado apenas de estratégias de marketing geradas pelo medo dos editores e da Warner Bros. (detentora dos direitos associados ao nome). A conquista do ápice é mérito tão somente de J.K. Rowling, que, mesmo enfrentando torturas que beiram ao masoquismo (chegou a quebrar o próprio braço para não ter de encarar o teclado do computador por algumas semanas), conseguiu criar um enredo atraente e inteligente. Cercado de subtramas e temas políticos, Rowling adentrou fundo de forma fria na mente do protagonista; em suas linhas como sempre muito detalhadas. Desta vez, usou a inteligência do público como arma para desenvolver uma história que pode ser refletida no mundo real e usa a magia apenas como realce de seus contornos. Os leitores em - maioria não mais crianças -, já estavam aptos para entenderem que até mesmo o fantástico mundo de Harry Potter não é sinônimo de maravilha. E é esta maturidade por parte do conto e de seus seguidores ávidos que se reflete no melhor e mais bem produzido filme da franquia.

Com roteiro sólido e bem filtrado – deixando-se por completo todas as subtramas de fora – Harry Potter e a Ordem da Fênix (Harry Potter and The Order of The Phoenix – EUA / Inglaterra – 2007 – Warner) inova. Utiliza os efeitos visuais – num deslumbre que não era enxergado no início da série – apenas quando necessários, proporciona uma evolução grosseira na percepção de mundo dos personagens e examina com cuidado cada centímetro das relações mantidas por cada um. Tudo de maneira singela e agradável, sem exageros, perdas de tempo desnecessárias ou momentos entediantes.

Sendo David Yates o segundo diretor britânico a comandar, o filme constrói progressivamente tudo o que os outros episódios – por melhor que tenham sido desde “O Prisioneiro de Azkaban” - não foram capazes de fazer. Isto deve-se, talvez, justamente ao fato de o diretor saber e entender as limitações do público em massa e ter enxergado além do que ainda era necessário ser posto nas telas. Famoso por seus filmes produzidos para a TV inglesa, Yates demonstrou ser mestre em extrair o máximo possível das atuações, criando um novo visual para a série que, pela primeira vez, pode ser analisado não somente pela técnica.

De fato, visualmente “Ordem da Fênix” é o melhor, a direção de arte conseguiu ser ainda mais luxuosa do que seu antecessor, os efeitos visuais beiram o brilhantismo não pela sua formação, mas pelos momentos e fases em que são inseridos; uma prova da capacidade ainda em exploração de David. Mas há ainda mais prós; começando pelas atuações:

A melhor de todas as surpresas, sem dúvida, é Imelda Staunton. Sua performance da professora Umbridge é invejável e ofusca com facilidade qualquer trabalho já realizado do gênero na série. O trio principal também evoluiu. Apesar de Daniel Radcliffe ainda não ser um exemplo de ator, esta foi a primeira vez que consegue convencer o público, mesmo que em percentagem consideravelmente menor que seus colegas. Mas isto, talvez, não seja desmérito do mesmo. Não é de hoje que "Harry Potter" reúne o melhor do teatro britânico e, apesar do pouco tempo e espaço reduzido em cena, Maggie Smith, Emma Thompson e Alan Rickman – este último principalmente – fazem-nos esquecer que há coadjuvantes na película (com destaque para Helena Bohan Carter que, por menor que seja sua soma de minutos, faz sua movimentação em cena digna de aplausos).

Levando-se em consideração as mais de 700 páginas de história (na versão brasileira) fica, evidentemente, impossível transpor tanto para apenas 138 minutos de fita. Ficava. O novo roteirista Michael Goldenberg soube neutralizar tudo aquilo que para grande parte dos leitores deixava a leitura cansativa. A exmplo, Grope, o meio-irmão gigante de Hagrid, personagem de Robie Coltrane, teve setenta porcento de suas passagens reduzidas na tela, sobrando apenas o que é essencial para o contexto. Até mesmo Umbridge e o padrinho de Harry, Sirius Black, sofreram com os cortes que para muitos significou uma mutilação na história. Mas tudo deve ser analisado. Goldenberg foi inteligente, aproveitou a linha central e puxou de suas ramificações o que ele sabia que poderia interferir no futuro da série no cinema. Resumiu de tal maneira que criou um roteiro redondo, sem interferências bobas que soam egocêntricas por parte da própria história. Evitou o grande erro que Steve Kloves (que estará de volta para “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”, próximo longa) cometeu em “A Câmara Secreta” e deixou o filme menos exaustivo e borrado por explicações infindáveis.

Claro que mesmo com sua sagacidade e dinâmica, o livro que originou o filme tem seus erros, suas falhas. Mas não é nada grosseiro. Seu grande pecado foi tentar enraizar o leitor em suas páginas por intermédio de linhas que partiam do centro da trama e pareciam, muitas vezes, não acabar; engordando assim o tijolo de celulose que é a “Ordem da Fênix”. Mas o filme acertou em tudo aquilo que o original errou. Cometeu erros, de fato, mas nada que comprometa o sucesso artístico e comercial da saga. Alguns podem julgá-lo simples e vazio na hora de retratar tudo o que Rowling exibiu, mas a capacidade de entreter e alto nível técnico e principalmente cultural, em suma, não pode ser mencionado na lista de futuras correções.

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Piratas do Caribe - O Baú da Morte
sábado, dezembro 29, 2007
Por Anônimo

Quando foi oficialmente anunciada a conclusão da “Trilogia do Caribe”, críticos e fãs se mostraram surpresos e até incrédulos. O motivo era óbvio: Johnny Depp. O destaque da comissão de frente responsável pelo sucesso imediato e crescente do primeiro filme da série jamais aceitou participar de continuações. Os conceitos do ator sobre cinema sempre estiveram muito além das movimentações econômicas que ditam o mercado cinematográfico americano. Porém, sua paixão pelo personagem que lhe deu fama no universo infanto-juvenil foi o suficiente para esquecer toda a especulação monetária por trás da produção multimilionária.

A expectativa sobre este que seria um dos lançamentos mais aguardados do ano se confirmou nos primeiros dias de exibição mundial. Piratas do Caribe: O Baú da Morte (Pirates of The Caribbean: Dead Man´s Chest – EUA – 2006 – Walt Disney Pictures) bateu recordes de público no planeta, entrou para a lista dos filmes que quebraram a barreira do bilhão de dólares em arrecadação (junto à "Titanic" e "O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei") e estacionou na terceira posição de bilheteria mundial, rebatendo "Harry Potter e a Pedra Filosofal".

Já avisado pela repercussão do personagem de Depp, o produtor Jerry Bruckheimer aprendeu a se acostumar com a presença de Jack Sparrow – o “pirata afetado” – nas telas. Mais do que isso: soube confiar no diretor - em experiência, mas visivelmente desenvolto - Gore Verbinski em relação ao assunto. A figura de Sparrow assume uma postura que, por mais cômica que pareça, desempenha uma função mais moderadora da ação e evoluída; mesmo que incompleto quanto ao sentido real do personagem na trama.

Numa tentativa desesperada de Bruckheimer para reduzir a importância de Jack no contexto, o roteiro da segunda parte da série gira em torno da relação pai e filho entre Bill Turner (Stellan Skarsgard) e Will Turner (Orlando Bloom). De fato, a história emplaca, mas não se mostra forte o suficiente para gerar mais interesse da platéia a Will ou tornar Jack Sparrow menos auto-suficiente. Em verdade, o único mérito do argumento é manter a rápida progressão do filme nos momentos em que este se torna cansativo. Exceção clara onde a curiosidade do público está voltada mais para a relação de animosidade (ou não) entre Sparrow e Elisabeth (vivida por uma Keira Knightley muito menos sofisticada e mais talentosa – indiscutivelmente). Em resumo, tudo não passa de uma medida paliativa.

Realizada simultaneamente à próxima seqüência (Pirates of The Caribbean: At World´s End, “No Fim do Mundo”) "O Baú da Morte" se vale do apoio orçamentário e das vantagens de rodar duas produções ao mesmo tempo. Os custos com locações e direção de arte se reduzem à metade. Aliás, estas, desta vez, superam qualquer projeto já planejado para um filme desta categoria. As imagens do vilarejo elevado sobre a água onde reside Tia Dalma (Naomi Harris, tão brilhante quanto Johnny Depp) são uma proeza dos engenheiros e desenhistas de produção. A edição de som suspende os erros dos efeitos sonoros que, ao contrário dos visuais, desapontam. Mas os piratas meio homens, meio frutos do mar de Davy Jones (outro ponto para a maquiagem e animação gráfica) estão longe de gerar a mesma dramaticidade e comicidade dos esqueletos zumbis de "A Maldição do Pérola Negra". A trilha sonora composta pelo experiente Hans Zimmer (autor de acompanhamentos fantásticos como o de "Batman Begins") é um desapontamento ao em nada acrescentar ao produto anterior de Klaus Badelt na primeira parte da saga; posicionando-se em apenas acompanhar as cenas, sem boas seqüências musicais tão marcantes já proporcionadas por "Piratas do Caribe".

"O Baú da Morte", certamente tem um papel fundamental: preencher uma lacuna. E tão somente faz como não há nenhuma preocupação com a autonomia que cada longa-metragem deve ter, independente de participar este de uma trilogia ou de um projeto maior. A esperança, ainda que abalada, é que a história devolva ao espectador tudo o que lhe foi retirado com esta barganha. O romance, ponto inicial da trama, já não tem o mesmo significado e isto já foi provado. A direção, ao menos, já se mostrou preocupada com o fato. A super exploração da ação e do barulho, são excessos visíveis. Recuperar a atenção da platéia para o final da narrativa não será de total dificuldade. Mas o baú do tesouro já foi aberto, os cofres inflam e a pouca simbologia cultural murcha progressivamente. Cabe agora ao Capitão Barbossa resgatar não só Jack Sparrow, como também o valor da série.

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Identidade visual por Rodrigo Rodrigues.