
Quando foi oficialmente anunciada a conclusão da
“Trilogia do Caribe”, críticos e fãs se mostraram surpresos e até incrédulos. O motivo era óbvio: Johnny Depp. O destaque da comissão de frente responsável pelo sucesso imediato e crescente do primeiro filme da série jamais aceitou participar de continuações. Os conceitos do ator sobre cinema sempre estiveram muito além das movimentações econômicas que ditam o mercado cinematográfico americano. Porém, sua paixão pelo personagem que lhe deu fama no universo infanto-juvenil foi o suficiente para esquecer toda a especulação monetária por trás da produção multimilionária.
A expectativa sobre este que seria um dos lançamentos mais aguardados do ano se confirmou nos primeiros dias de exibição mundial.
Piratas do Caribe: O Baú da Morte (
Pirates of The Caribbean: Dead Man´s Chest – EUA – 2006 – Walt Disney Pictures) bateu recordes de público no planeta, entrou para a lista dos filmes que quebraram a barreira do bilhão de dólares em arrecadação (junto à
"Titanic" e
"O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei") e estacionou na terceira posição de bilheteria mundial, rebatendo
"Harry Potter e a Pedra Filosofal".
Já avisado pela repercussão do personagem de Depp, o produtor Jerry Bruckheimer aprendeu a se acostumar com a presença de Jack Sparrow – o “pirata afetado” – nas telas. Mais do que isso: soube confiar no diretor - em experiência, mas visivelmente desenvolto - Gore Verbinski em relação ao assunto. A figura de Sparrow assume uma postura que, por mais cômica que pareça, desempenha uma função mais moderadora da ação e evoluída; mesmo que incompleto quanto ao sentido real do personagem na trama.
Numa tentativa desesperada de Bruckheimer para reduzir a importância de Jack no contexto, o roteiro da segunda parte da série gira em torno da relação pai e filho entre Bill Turner (Stellan Skarsgard) e Will Turner (Orlando Bloom). De fato, a história emplaca, mas não se mostra forte o suficiente para gerar mais interesse da platéia a Will ou tornar Jack Sparrow menos auto-suficiente. Em verdade, o único mérito do argumento é manter a rápida progressão do filme nos momentos em que este se torna cansativo. Exceção clara onde a curiosidade do público está voltada mais para a relação de animosidade (ou não) entre Sparrow e Elisabeth (vivida por uma Keira Knightley muito menos sofisticada e mais talentosa – indiscutivelmente). Em resumo, tudo não passa de uma medida paliativa.
Realizada simultaneamente à próxima seqüência (
Pirates of The Caribbean: At World´s End, “
No Fim do Mundo”)
"O Baú da Morte" se vale do apoio orçamentário e das vantagens de rodar duas produções ao mesmo tempo. Os custos com locações e direção de arte se reduzem à metade. Aliás, estas, desta vez, superam qualquer projeto já planejado para um filme desta categoria. As imagens do vilarejo elevado sobre a água onde reside Tia Dalma (Naomi Harris, tão brilhante quanto Johnny Depp) são uma proeza dos engenheiros e desenhistas de produção. A edição de som suspende os erros dos efeitos sonoros que, ao contrário dos visuais, desapontam. Mas os piratas meio homens, meio frutos do mar de Davy Jones (outro ponto para a maquiagem e animação gráfica) estão longe de gerar a mesma dramaticidade e comicidade dos esqueletos zumbis de
"A Maldição do Pérola Negra". A trilha sonora composta pelo experiente Hans Zimmer (autor de acompanhamentos fantásticos como o de
"Batman Begins") é um desapontamento ao em nada acrescentar ao produto anterior de Klaus Badelt na primeira parte da saga; posicionando-se em apenas acompanhar as cenas, sem boas seqüências musicais tão marcantes já proporcionadas por
"Piratas do Caribe".
"O Baú da Morte", certamente tem um papel fundamental: preencher uma lacuna. E tão somente faz como não há nenhuma preocupação com a autonomia que cada longa-metragem deve ter, independente de participar este de uma trilogia ou de um projeto maior. A esperança, ainda que abalada, é que a história devolva ao espectador tudo o que lhe foi retirado com esta barganha. O romance, ponto inicial da trama, já não tem o mesmo significado e isto já foi provado. A direção, ao menos, já se mostrou preocupada com o fato. A super exploração da ação e do barulho, são excessos visíveis. Recuperar a atenção da platéia para o final da narrativa não será de total dificuldade. Mas o baú do tesouro já foi aberto, os cofres inflam e a pouca simbologia cultural murcha progressivamente. Cabe agora ao Capitão Barbossa resgatar não só Jack Sparrow, como também o valor da série.