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As Crônicas de Spiderwick
quinta-feira, março 27, 2008
Por Anônimo

É difícil fugir do grande lugar comum que é o cinema atual. Refilmagens, continuações, séries ressuscitadas, adaptações. Em muitos casos (ou na maioria, na verdade) essa atitude gera transtornos, frustrações para o público e produtores (o que gera a alegria da crítica) e algo muito próximo do prejuízo aos estúdios. Este é o reflexo da falta de criatividade e quantidades exorbitantes de fontes, por vezes literárias, inexploradas. Dentre todos esses malefícios, “As Crônicas de Spiderwick” (The Spiderwick Chronicles – EUA – 2008 - Paramount) só corre o risco de padecer no último.

Não é segredo que as séries “Harry Potter” e o “Senhor dos Anéis” alavancaram um novo seguimento (ou ao menos renovaram-no do esquecimento) cinematográfico que nos últimos 7 anos tem gerado bilhões aos cofres. Mas também não é verdade que todas alcançam o êxito. Muitas possíveis franquias foram canceladas por tentarem atingir o grande e concentrado público desses dois mega-sucessos, sacrificando a própria identidade cultural. Spiderwick não cometeu tal engano leviano. Acreditar em sua história, fórmula e distinguir seu público do alheio, por mais similares que aparentam, é uma arte tão célebre como o trabalho de um filme em si.

Baseado nos cinco livros da série homônima, escritos em parceria por Tony DeTerlizzi e Holly Black, o longa não captura o espectador pelo topete logo de cara. O que é arriscado, porém, involuntário. Spiderwick se desenvolve ao longo e só mostra a que veio quando prova seu real valor fantástico (no sentido literal da palavra) ao observar que nem sempre é válido sair do círculo de proteção estabelecido por obras anteriores: manter os padrões infantis sem crucificar a técnica (ainda que no meio termo) e fugir de sua própria verossimilhança. Trocando em miúdos, satisfaz os pequenos e mantêm os adultos confortáveis em seu lugar sem reclamar. O que não deixa de ser interesante. Não que os atuais filmes de fantasia deixem de fazer o mesmo, mas o diretor Mark Waters teve cuidado ao revisar o roteiro tão fechado e ilimitado.

É evidente que alterações e exclusões de passagens de um livro são necessárias. Os motivos nunca foram escondidos. Primeiro porque há um tempo limite de fita a ser obedecido e segundo porque antes de mais nada, cinema e literatura são linguagens totalmente diferentes. Por sorte, Karey Kirkpatrick, David Berenbaum e John Sayles entenderam o recado ao escreverem um roteiro tão fino e coerente, sem ramificações desnecessárias. De fato a alteração no clímax da história foi semi-brutal, mas não chega nem perto de prejudicar a trama da adaptação. O script fala por si só e demonstra sua qualidade ao utilizar os efeitos especiais apenas quando necessários.

Não que este seja o único aspecto que valorize o filme. O elenco possui química familiar e convence. Por sinal, Freddie Highmore alcança o mais difícil: corresponder consigo mesmo. Claro que interpretar dois personagens já não é mais mistério para quem possui talento nato, mas a postura veterana e altamente qualificada do garoto de 15 anos é visível e com poucos pode ser comparada. Sua relação entre os personagens é habilidosa para separar e unir. Delimita a linha que separa seus interpretados sem jamais cruzá-la, deixando explícito a olho nu quem é quem (dispensando a diferença pelo figurino, evidentemente), ao passo que dialoga e contracena com sua imagem sem deixar vestígios de sobreposição de imagens.

Não se pode dizer, apesar de seus bons feitos, que “As Crônicas de Spiderwick” é um grande filme. É ausente de colaboração para o aperfeiçoamento do padrão hollywoodiano, até porque não ousa inovar - um exemplo disso é a trilha reciclada de James Horner de "Gasparzinho" reutilizada em suma em alguns momentos ou na pré-elaboração do tema central. Contudo, naquilo que já foi feito por muitos, a direção soube refazer em outros aspectos muito bem. Não há cenas memoráveis ou grandes seqüências fabulosas de efeitos visuais desenvolvidas pelos magos da Industrial Ligh & Magic - no que diz respeito a este quesito, eles até possuem bons desenhos, mas pouca textura. Para os cinéfilos pode ser apenas mais uma simples e boba adaptação literária. Entretanto, se for de um bom entretenimento familiar de qualidade que estamos falando, então temos muito mais do que um livro de campo nas mãos para guardar.









Jumper
segunda-feira, março 24, 2008
Por Anônimo

Em alguns momentos de falta de criatividade, Hollywood decide explorar terras já antes descobertas e senão muito devastadas. Esse é o infeliz caso de Jumper (Jumper – EUA – 2008 – Twentieth Century Fox). Tentando evidenciar um gênero em baixa no atual momento do mercado, o produtor Simon Kinberg nos deu apenas mais um motivo para engavetarmos por mais algum tempo e esquecer o estilo em questão até a próxima empreitada.

Hayden Christensen vive um jumper (ou saltador); alguém com capacidade de se teleportar para qualquer lugar do planeta a qualquer momento. Alimentando seu ego com dinheiro e luxo provenientes de seus inúmeros “arrombamentos” de cofres, David (seu personagem) se vê enrascado quando dá de cara com uma equipe especializada em caçar indivíduos com sua habilidade. A princípio, parece ser apenas uma insinuação de um filme de ação comum, sem grandes ordens. No entanto, Jumper apresenta-se pior do que a encomenda.

Apesar da originalidade da idéia, o roteiro é uma sucessão de falhas em progressão aritmética que desemboca numa P.G. de alta complexidade. Não há formulação de personagens, enredo ou conclusões, e sim uma exibição de fatos e ações em seqüência que comandam o filme no piloto automático, ora que o diretor parece ter “saltado” do posto – com o perdão da piada. Doug Liman, que outrora havia se responsabilizado pelo então sucesso “Sr. e Sra. Smith”, simplesmente esquece a técnica, o apuro e o tato para cenas de ação que ele tanto se mostrou eficaz em seu atecessor do gênero.

O que mais encomoda no longa talvez não esteja na péssima coordenação das cenas de ação ou na ausência de boas tomadas, está no que ele pede para que se acredite. A trama é mal articulada e em nenhum momento houve a preocupação de fixar na mente do espectador qual o motivo que leva a aceitar a presença do protagonista. Sua personalidade é lamentável, prepotente, arrogante e enojadora. O ápice da complicação reside no fato de não se esclarecer quem é o vilão e quem é o mocinho através de conceitos, até porque, oficialmente, não há - é tudo funcional, cada qual desempenhando uma célula. Existe, de fato, uma tomada de valores de cada personagem. Valores estes que se misturam os certos e errados, onde devemos entender (aceitar ainda seria o verbo mais qualificado) que se escolhermos sentar na arquibancada da torcida de David, é porque este detém em sua bagagem psicológica um maior número de bons costumes em relação aos ruins. Afinal, os paladinos (organização que funciona como vilã do filme) é tão mediocrilmente desenvolvida como todo o resto. Sua origem, fundamentos, conceitos e objetivos são omitidos. Onipresente é apenas sua força brutal e manipuladora que, ao olhar clínico dos produtores, é o suficiente para entendermos sua participação na história.

Antes tivesse parado por aí. O que muito se vê neste tipo de filme são os furos no roteiro. Mas Jumper inova, vai além. Comete mais pecados que muitos de seus antecessores e provavelmente sucessores. Os efeitos visuais são fracos, atingindo o apogeu unicamente nos impactantes momentos de teleporte. Os enquadramentos são equivocados e a única ressalva de vida está no criterioso editor Saar Klein, que conserta alguns estragos promovidos pela direção; cortando seqüências na linha certa e somando sempre à câmera exata. A trilha sonora do excelente John Powell (quando anexado ao estilo certo) soa confortavelmente, mas surge em alguns momentos inoportunos. Até mesmo a jovem Rachel Bilson, que prometia ser uma âncora para o filme, decepciona ao não saber relacionar sua personagem ao proposto pela mais jovem e talentosa AnaSophia Robb; um dos poucos méritos do filme em seus primeiros e únicos bons momentos de projeção.

Não é de hoje que bons diretores e péssimos produtores se juntam para dar algum progresso a um trabalho ruim, mas poucas vezes o estrago ganhou essas proporções; principalmente devido à inexplicável queda no padrão qualitativo de Doug Liman, por mais tímido que este seja. Mais controverso que o filme em sí são os projetos futuros para o mesmo. Com baixa bilheteria e fraco tino cinematográfico, a produção já pensa em continuações. Na primeira, por ora, os jumpers serão capazes de se teleportar através do universo; entre planetas e asteróides. Tão convincente quanto, só mesmo o fabuloso final imoral do longa original.









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Identidade visual por Rodrigo Rodrigues.