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Era uma vez...
quinta-feira, julho 24, 2008
Por Marcello Morgan

Sabe quando você senta na poltrona do cinema e se depara nas primeiras cenas com mais uma favela num filme nacional? É exatamente assim que o filme Era uma vez... (Brasil – 2008 – Conspiração Filmes/Globo Filmes) começa, e logo soltamos: “favela de novo?!”. É essa frase clássica que causará um peso na consciência ao término da sessão, porque essa história de amor à la “Romeu e Julieta” envolve, ganha e prende o espectador em sua trajetória romântica.

Dirigido por Breno Silveira (“2 Filhos de Francisco”), o longa pode ser considerado um romance dramático, que conta a história de Dé, morador da favela do Cantagalo, e Nina, filha única de família rica, que se apaixonam e sofrem por causa do preconceito social existente por parte das duas famílias. Esse preconceito social bem tratado no filme demonstra que ambas as famílias possuem seus motivos: Bernardete, mãe de Dé, não quer gente rica fazendo escândalo na favela em busca da filha e Evandro, pai de Nina, não aceita que ela namore com um jovem morador de favela, mas, para a felicidade dos filhos, os dois lados tentam entender e aceitar o que eles desejam.

O palco da história é o bairro de Ipanema, dividido em morro e asfalto, que possui um cenário maravilhoso, deixando o longa muito mais bonito pelas paisagens, até mesmo das favelas - que, apesar da imagem suja, tem sua beleza. A praia, o morro, cenários naturais que viram um grande atrativo fotográfico do filme, já que a cor, luz e sombra tornam tudo aquilo cada vez mais maravilhoso e real.

As atuações de Thiago Martins (Dé) e Vitória Frate (Nina) são fantásticas, eles estão incrivelmente espontâneos, sem exageros para conseguir o que desejam, e isso deixa o filme mais prazeroso, estimulando cada vez mais a emoção, realçando a impressão de que aquilo aconteceu de verdade; além de Cyria Coentro, Paulo Cesar Grande e Rocco Pitanga, dando vida aos personagens secundários que nos deixam mais conectados à história de Dé e Nina.
A forma como o tráfico de drogas é tratado no filme é cuidadosa, sendo apenas ilustrado o lado corrupto da policia - cobradora de dívidas dos traficantes - para que isso não se torne algo tão importante quanto a trama principal, assim como a violência, que fica em segundo plano e só vira parte integrante do contexto quando necessária. Necessidade esta que, com exceção do final, é o momento mais emocionante do filme. O sexo existente neste é sutil e focado no local certo: o amor impossível dos dois apaixonados e na forma como se esforçam para este dar certo.

Claro que, como todo bom romance, ele não escapa de alguns clichês que são visíveis durante os acontecimentos. Contudo, é algo que não demonstra importância e deixa-se passar, se preocupando mais em saber como esse romance acaba, se tudo dá certo ou errado.

Além do filme mostrar que o amor é a coisa mais poderosa do mundo, é uma ótima chance de ver como o nosso cinema tem prestígio e como somos bons no que fazemos; bastando um bom roteiro, competência para dirigí-lo e atores que façam valer seu trabalho, provando para muitos que ainda estamos dando os primeiros passos para alcançar - ou chegar bem perto - do cinema internacional.







Batman - O Cavaleiro das Trevas
segunda-feira, julho 21, 2008
Por Anônimo

É uma verdade absoluta que a alegria de muitos críticos é um filme ruim, cheio de defeitos que podem ser listados e comentados com humor ou desprezo, gerando o riso em alguns leitores e diversão dos mesmos. Só que melhor ainda é se deparar com uma obra em escala máxima, que invalide qualquer sessão de qualquer filme que esteja sendo exibido no mesmo cinema. Surpresa ou não, Batman – O Cavaleiro das Trevas (Batman – The Dark Knight – EUA – 2008 – Warner) impressiona por apresentar uma proposta de herói que contrasta com o visto atualmente no cinema, assim como o herói moderno faz com o clássico, na literatura.

Detentor de tantos alvos para elogios, é difícil mirar em apenas um. O roteiro linear sem falhas e furos beira a perfeição, a visão do diretor exibe realismo e a autenticidade artística do elenco é obra do brilhantismo. Executado com primor, o filme insere diferentes impactos ao longo de suas duas horas e meia. O primeiro e mais importante está no prólogo: a primeira imagem vista, Gotham pacífica e iluminada pelo dia, é uma relação clara com o trabalho feito pelo Batman, que contrapõe com o clima obscuro e sombrio visto em “Begins”; a engrenagem que move a trama.

É nesta iluminação pacífica que a mente mais perversa e maníaca, deslumbrada com sua própria insanidade, derruba a moral e o sossego; dos moradores de Gotham, do Homem-Morcego e da platéia. Sem querer cair na redundância, mas o Coringa de Heath Ledger é um espetáculo a parte, e por mais que dêem o valor ao trabalho de Jack Nicholson em “Batman”, de Tim Burton, comparações nem devem ser feitas, tamanha a complexidade absorvida e expressa em cinismo, crueldade, sangue-frio e risadas. Coringa é impassível, liberto, imune a ofensas e ameaças, sendo seu único temor perder a piada. O agente do caos de Ledger é uma marca tão grandiosa que cria certa dependência no espectador. Sua presença inquietante na tela conforta justamente por sabermos como ele age, enquanto que sua ausência produz receio perante o que ele pode estar planejando para sua próxima apresentação circense ao soar da trilha amedrontadora de Hans Zimmer e James N. Howard.

O grande lance de “O Caveleiro das Trevas” está justamente na maneira como ele desenvolve o duelo psicológico entre o Coringa e Gotham City. Interpolando ameaças que desencadeiam em fatos consumados e cenas de ação extremamente elaboradas, porém, não saturadas durante o filme, a produção chegou a um nível de qualidade que nenhum título do gênero policial até hoje chegou. Excluso de grandes seqüências com animações computadorizadas, o filme se aproxima do caráter cinematográfico ao qual quer pertencer. De fato, Batman é um título de ação e os efeitos visuais estonteantes estão lá sim, mas são singelos, usados com precisão e muitas vezes trocados pelo que a boa técnica tradicional da sétima arte pode fazer quando se tem 150 milhões de dólares (já pagos nos três primeiros dias de exibição) para torrar. É neste quesito que Christopher Nolan atinge uma parcela do público que pode não se interessar tanto pela psique do filme e, o mais impressionante, sem usar as cartas chave para tal.

Em relação ao seu antecessor, o herói progrediu. Ainda que seu universo não seja tão belo visualmente como na aventura anterior – uma mudança no padrão da fotografia da produção -, evidenciando a alternância de proposta neste episódio da série, o longa acertou em trocar a “água com açúcar” Katie Holmes por Maggie Ghyllenhaal, que demonstrou ser mais capaz de criar uma Rachel Dawes mais centrada e confiante, admitindo seu caráter heróico contra o papel inútil de mocinha visto em “Begins”. Até os membros do elenco que regressaram parecem ter acompanhado a evolução do Homem-Morcego. Michael Caine e Gary Oldman representam com louvor a proximidade das personalidades do mordomo Alfred e James Gordon com Bruce Wayne e Batman – respectivamente -, exercendo sobre cada lado da vida do herói uma influência de valor, direcionando seus atos para o caminho mais sensato.

Justamente nesta característica que é possível assistir a evolução do significado da palavra “herói” no cinema. Desde seu início, Batman é revoltado com seu passado, canalizando sua raiva através do medo alheio, deixando sua prepotência para a vida social de seu alter-ego Bruce Wayne. No entanto, suas ações e escolhas jamais fugiram dos limites da ética e da lei, diminuindo o alcance de seus passos a apenas o calcanhar de seus inimigos. Mas é quando se depara com um vilão que não tem nada a perder ou ganhar, que unicamente quer produzir e gargalhar com o pânico e a desordem, que Batman se vê obrigado a burlar um sistema que sempre fez questão de manter funcionando. Dentro de sua justificativa dos meios pelos fins, o morcego ilustra pela primeira vez o seu lado realmente sombrio para então suprir a necessidade dos cidadãos a que protege. Esta escolha, esta opção por princípios, o habilita a atingir o mesmo patamar de periculosidade para o Coringa que este impõe para a cidade.

As armas do Batman agora vão além do que a tecnologia lhe proporciona; o único muro que o Tumbler não era capaz de derrubar já não existe mais, a tempo de assimilar a situação catastrófica quando a moralidade é um valor que deixa de ser seguido também por Harvey Dent (pelo na medida Aaron Eckhart). A assimilação por Harvey dos traços sociais tão presentes na sua luta por justiça dá lugar a uma guerra pessoal que o motiva a agarrar a crueldade para concretizar sua vingança, compondo uma dualidade – justiça/crime – que se torna o conteúdo da imagem física do Duas-Caras.

A troca de papéis do Cavaleiro Branco com o Cavaleiro Negro é um dos principais atrativos do longa que foca com cuidado este momento de transição. É ao saber guiar a transformação de um símbolo unicamente interpretado a um símbolo com dois pontos de vista e, de um homem com duas caras e um rosto para o exato oposto, que “Batman – O Cavaleiro das Trevas” se revela uma grande charada que reflete o que todos um dia podem possuir dentro de si.







Hancock (Crítica com alguns spoilers)
sexta-feira, julho 04, 2008
Por Breno Ribeiro

Sabe quando um filme poderia ser muito bem um curta-metragem dada a falta de história do mesmo, mas alguém vai lá e enrola o roteiro todo pra ele ficar com pelo menos uma hora e meia? Então, isso não acontece em Hancock (Hancock - EUA - 2008 - Sony). O filme não possui história suficiente para durar tempo bastante pra ser um longa, mas os roteiristas não enrolam o roteiro colocando cenas soltas ou subtramas sem sentido. Por outro lado, eles criam duas histórias sobre a mesma pessoa tentando, de alguma forma não-aparente, unir as duas num filme só. Seria como pegar "Matrix" 1 e 2 e juntar, com a diferença básica de que ambos possuem por si só uma história coesa e bem montada.

Começando com a história de um herói bêbado (me recuso a usar o "beberrão" das sinopses) e impopular à procura de uma espécie de redenção e terminando com a história de casais extraterrestres que não podem ficar perto um dos outros, "Hancock" só consegue ser no mínimo assistível na primeira metade da projeção, altamente voltada para uma história de redenção que, mesmo não atraindo muito, se mostra coerente até um determinado momento.

O roteiro, aliás, é um show à parte. Além da virada fenomenal na trama para chegar a lugar nenhum, o mesmo traz vários furos e repetições sem sentido. Um dos furos pode ser descrito nas cenas finais do filme, onde a personagem da Charlize Theron aparentemente também sente as dores sofridas por Hancock, quando este não sentiu as dores sofridas por ela minutos antes. E uma das repetições mais estúpidas do filme é o fato de Hancock ficar com raiva sempre que o chamam de "idiota", algo completamente sem sentido para alguém com mais de 10 anos mentais.

Aliás, grande parte das ações do "herói" não condizem com a sua vasta idade etária (visto que a mental estacionou na adolescência). Primeiro por fingir uma postura adulta de "não ligo pro que os outros pensam" no começo do filme e por se negar a fazer coisas que são, obviamente, benéficas tanto a eles quanto a terceiros. A visão totalmente egocêntrica de Hancock o torna um personagem totalmente não-passível da simpatia do telespectador, a não ser quando ele solta uma de suas piadas. Por falar nisso, o humor do filme é algo realmente singular. Pendendo entre o quase-cômico e o humor de mau gosto, o texto escorrega várias vezes ao tentar quadros humorísticos de uma maneira forçada e quase sempre sem graça nenhuma.

Sem graça também é o alto grau de previsibilidade do filme. O diretor Peter Berg focaliza a câmera na cara (sempre tensa, aliás) de Charlize Theron, apontando para o fato óbvio de que ela esconde algum mistério e quando o mistério é revelado todo mundo já sabe do que se trata (aliás, ouvi vários "Já sabia" no cinema quando a cena ocorre, na metade final do filme).

As atuações são outro ponto interessante. Charlize Theron (como alguém que ganha um Oscar de Melhor Atriz se presta a isso?) e Jason Bateman até convencem em seus papéis rasos, mas o uso excessivos de bicos por Will Smith torna a figura do herói bêbado ainda mais caricatural do que de fato já é.

Em suma, "Hancock" é o típico filme que começa razoavelmente interessante (porque bom mesmo não é em momento nenhum) e entra num declive abismal sem fim a partir da metade da projeção, terminando de maneira superficial, previsível e tendo tanto sentido quanto um desfile de moda sem apresentação de roupas.


*Embora eu não me lembre, no momento, de nenhum erro, é notável o declive também no qual entrou a legendagem dos filmes atuais. Além dos já famosos erros de tradução em si, as legendas agora contém erros absurdos de coesão no próprio português. Lamentável.







Kung Fu Panda
sexta-feira, julho 04, 2008
Por Érika Zemuner

Primeiramente, é válido entoar um mandamento: não farás comparações entre Pixar e DreamWorks, não farás comparações entre Pixar e DreamWorks. Pronto, agora sim.

Enquanto os concorrentes (sim, aquela mesma) tentam inovar investindo em personagens menos triviais pra compor o elenco de suas animações, a DreamWorks continua apostando no que lhe parece mais garantido. Os bichinhos fofinhos que já permeavam ”Os Sem Floresta”, ”Madagascar” e "Bee Movie" estão de volta agora em Kung Fu Panda (Kung Fu Panda - EUA - 2008 - DreamsWorks/Paramunt). Unindo o útil e rentável ao agradável, o estúdio se aproveitou do ano em que as Olimpíadas serão realizadas em Pequim (que, aos poucos, está virando Beijing até aqui no Brasil, país de língua portuguesa até o momento) e contextualizou seu mais novo filme nas paisagens chinesas. A junção inegavelmente deu certo.

A aventura gira em torno do sonho de Po, o panda, de ser um reconhecido lutador de kung fu. O problema é que, apesar do desejo sincero em ser um lutador, ele é, a princípio, somente o ajudante de seu pai (um ganso!) em uma venda de macarrão. O urso - que na versão original é dublado por Jack Black, mas você provavelmente vai assistir na voz de Lúcio Mauro Filho em ótima performance – é grande admirador d’Os Cinco Furiosos, guerreiros treinados pelo Mestre Shifu. Os ídolos de Po são representados pelos animais em que se baseiam os princípios do kung fu: tigre, louva-deus, macaco, garça e cobra. As habilidades características de cada um deles forma os pilares da luta.

O destino de todos eles se cruzará a partir do momento em que Tai Lung, um leopardo das neves que também foi treinado por Shifu, foge da prisão de segurança hiper-mega-master-super-máxima Chorh-Gom. Quando era jovem e ainda estava sob a tutela de seu mestre, Tai Lung sempre teve convicção de que seria escolhido como o Dragão Guerreiro e teria, conseqüentemente, direito ao Pergaminho do Dragão que, segundo as lendas, contém segredos de um poder superior a tudo antes visto. Não sendo o predestinado a colocar as mãos no tesouro, ele se revoltou contra todos causando pânico no Vale e foi preso durante vinte anos. Agora ele está de volta e precisará ser detido pelo verdadeiro Dragão Guerreiro, que é, senão outro, o desengonçado Po. Para aturdimento geral, o panda é escolhido como o herói que salvaria o povoado em uma das melhores seqüências do filme. O tempo, então, começa a correr, e Shifu tem pouco tempo para lapidar o talento de seu novo pupilo e transformá-lo em um guerreiro corajoso e páreo para Tai Lung.

A trilha sonora do filme, de autoria do brilhante Hans Zimmer em parceria com John Powell, junto com o visual que nos remete diretamente à cultura chinesa são ingredientes essenciais para que o expectador se deixe imergir na cultura oriental tão em moda nesses tempos. Aliás, referências à China não faltam. Além do kung fu e da arquitetura, há inserções de outros aspectos, alguns sutis, outros nem tanto (como, nesse caso, a acupuntura).

Porém, a animação não tem intenção nenhuma de se aprofundar nesses detalhes. Eu diria, inclusive, que ”Kung Fu Panda” é conscientemente despretensioso. Diferente de seu concorrente em cartaz nos cinemas (sim, aquele), a fauna do filme não tem outro objetivo que não seja divertir. Portanto é aconselhável que o interessado no filme não vá ao cinema tentando encontrar qualquer engajamento ambiental ou qualquer mensagem mais profunda embutida nos diálogos inocentes dos personagens. Claro que há uma moral. Praticamente todos os filmes destinados às crianças possuem uma, mas estamos falando da DreamWorks. E se aquele protagonista com olhar tristonho não precisa de mais do que um movimento de seu globo ocular para passar seu recado, Po e seus companheiros usam e abusam de piadinhas, caras e bocas. Às vezes até exageradamente, ao ponto de quase virarem uma caricatura de si mesmos. A lição aqui é a velha máxima de “não desista de seus sonhos, supere-se a cada instante”. Nada que desperte uma reflexão maior.

O filme cumpre com o seu papel de objeto de entretenimento. Com certeza você que for assistir dará algumas risadas, assim como eu. Há algumas passagens que realmente valem a pena, mas fica nisso mesmo. Os produtores da DreamWorks cumprem a proposta de divertir seu público. E nem digo que seria necessário algo além disso, muito pelo contrário. Uma animação não pode perder sua essência de “animação” para virar cartilha de comportamento para as crianças. O problema é nosso se existe uma coisa chamada Pixar que aumentou o parâmetro de julgamento nessa indústria fazendo filmes cada vez mais elaborados (oh, céus, perdoem-me, pois eu pequei!).









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Identidade visual por Rodrigo Rodrigues.