
Sabe quando você senta na poltrona do cinema e se depara nas primeiras cenas com mais uma favela num filme nacional? É exatamente assim que o filme
Era uma vez... (Brasil – 2008 – Conspiração Filmes/Globo Filmes) começa, e logo soltamos: “favela de novo?!”. É essa frase clássica que causará um peso na consciência ao término da sessão, porque essa história de amor à la
“Romeu e Julieta” envolve, ganha e prende o espectador em sua trajetória romântica.
Dirigido por Breno Silveira (“2 Filhos de Francisco”), o longa pode ser considerado um romance dramático, que conta a história de Dé, morador da favela do Cantagalo, e Nina, filha única de família rica, que se apaixonam e sofrem por causa do preconceito social existente por parte das duas famílias. Esse preconceito social bem tratado no filme demonstra que ambas as famílias possuem seus motivos: Bernardete, mãe de Dé, não quer gente rica fazendo escândalo na favela em busca da filha e Evandro, pai de Nina, não aceita que ela namore com um jovem morador de favela, mas, para a felicidade dos filhos, os dois lados tentam entender e aceitar o que eles desejam.
O palco da história é o bairro de Ipanema, dividido em morro e asfalto, que possui um cenário maravilhoso, deixando o longa muito mais bonito pelas paisagens, até mesmo das favelas - que, apesar da imagem suja, tem sua beleza. A praia, o morro, cenários naturais que viram um grande atrativo fotográfico do filme, já que a cor, luz e sombra tornam tudo aquilo cada vez mais maravilhoso e real.
As atuações de Thiago Martins (Dé) e Vitória Frate (Nina) são fantásticas, eles estão incrivelmente espontâneos, sem exageros para conseguir o que desejam, e isso deixa o filme mais prazeroso, estimulando cada vez mais a emoção, realçando a impressão de que aquilo aconteceu de verdade; além de Cyria Coentro, Paulo Cesar Grande e Rocco Pitanga, dando vida aos personagens secundários que nos deixam mais conectados à história de Dé e Nina.
A forma como o tráfico de drogas é tratado no filme é cuidadosa, sendo apenas ilustrado o lado corrupto da policia - cobradora de dívidas dos traficantes - para que isso não se torne algo tão importante quanto a trama principal, assim como a violência, que fica em segundo plano e só vira parte integrante do contexto quando necessária. Necessidade esta que, com exceção do final, é o momento mais emocionante do filme. O sexo existente neste é sutil e focado no local certo: o amor impossível dos dois apaixonados e na forma como se esforçam para este dar certo.
Claro que, como todo bom romance, ele não escapa de alguns clichês que são visíveis durante os acontecimentos. Contudo, é algo que não demonstra importância e deixa-se passar, se preocupando mais em saber como esse romance acaba, se tudo dá certo ou errado.
Além do filme mostrar que o amor é a coisa mais poderosa do mundo, é uma ótima chance de ver como o nosso cinema tem prestígio e como somos bons no que fazemos; bastando um bom roteiro, competência para dirigí-lo e atores que façam valer seu trabalho, provando para muitos que ainda estamos dando os primeiros passos para alcançar - ou chegar bem perto - do cinema internacional.